THE HIDEOUS MEN, IRREGULAR

"[...] and the music as subject instead of environment is somehow terribly disturbing: Hal listened to a few minutes of the stuff and told his brother it sounded like somebody's mind coming apart right before your ears."

(David Foster Wallace)



Victor Heringer & Benjamim Alencar apresentam the hideous men. irregular é seu disco de estreia.

Baixe | Ouça



EP "irregular" (2011) por the hideous men
APRESENTAÇÃO

irregular (2011) - the hideous men
por Dimitri Rebello & Cleo Weiss


O que aconteceria se Machado de Assis entrasse para o Kraftwerk?


"Comparados aos instrumentos tradicionais, com uma história de muitos séculos, os instrumentos musicais eletrônicos têm uma história de apenas 50 anos. (...) suas formas não estão ainda estabelecidas, assim o músico está apto a ficar desorientado. Os tocadores desses instrumentos que poderiam ser equiparados em habilidade aos virtuoses do piano e do violino ainda não apareceram."

Corria o distante ano de 1975, no milênio passado, quando Isao Tomita, pioneiro japonês dos sintetizadores aplicados à música dita Clássica, escreveu essas palavras.
E ele estava certo: os instrumentos eletrônicos passariam nas décadas seguintes (assim como toda a tecnologia do planeta) por uma sucessão vertiginosa de metamorfoses, até alcançar patamares então impensáveis de aperfeiçoamento – e de banalização. E seus futuros virtuoses ainda não eram sequer nascidos.

Honorável Tomita, é com prazer que, 36 anos depois, venho lhe informar: ei-los! Eis os seres cibernéticos, deitados no berço esplêndido da tecnologia onipresente, do acesso irrestrito e caótico a todo o conhecimento humano acumulado, das poderosas ferramentas eletrônicas pessoais – e, sobretudo, da falta de pudor em utilizar tais recursos tremendos. Eis seus virtuoses do futuro, eis seus campeões! Eis, Isao-sama, THE HIDEOUS MEN.

THE HIDEOUS MEN é o nome sob o qual se reúnem para experiênças musicais o poeta e ensaísta carioca Victor Heringer e seu comparsa Benjamim Alencar. Constatar que se trata de um duo, no entanto, é tão verdadeiro quanto inútil: a natureza digital (sic) de suas criações sonoras leva Heringer & Alencar a se multiplicar, ou mesmo (por que não?) a se dividir, conforme o rumo determinado por/para suas deviantes invenções eletroacústicas. Aliás, a liberdade no uso de todo o arsenal técnico e estético em que puderem pôr as mãos é o pacto primordial estabelecido pela não-dupla – e a senha para o convite que fazem ao ouvinte intrépido.

Convite, por sinal, generoso – não se vá acusar THM de hermetismos tolos; seu álbum de estreia, irregular, é franco desde o título. O ouvinte já entra avisado: o que vai ouvir é "irregular" – variado, inconstante, múltiplo. Múltiplo em texturas sonoras e em referências, eruditas e populares, musicais e não. As composições não apenas são diferentes umas das outras, como trazem em si mesmas guinadas inusitadas. Conservam no entanto, músicas e álbum, um eco narrativo – talvez por cacoete do escritor Victor – que em muito facilita o acesso à obra.

"do ruído, nós nascemos", declara logo a faixa de abertura – que de fato inicia o álbum com uma superposição de ruídos brancos, sobre os quais as primeiras notas de sintetizador e os primeiros loops percussivos são gentilmente introduzidos. Está assim estabelecido o tripé – ruído, sons sintéticos e loops – sobre o qual irregular será construído. De orgânico mesmo, só a respiração ofegante, comoventemente humana, de "não os deixe respirar" e "para que saibam que você ainda respira".

O sintetizador, no entanto, não tem pudor de soar "natural" quando convém. Já se vão quase 15 anos desde que o Radiohead disse ok ao computador; Victor e Benjamim não precisam se justificar. Assim, o familiar som do piano acústico é talvez o mais recorrente ao longo do álbum, convivendo sem conflitos com timbres já em vias de se tornar igualmente familiares: sintetizadores típicos dos anos 1970-80 (como na faixa de abertura e na segunda, "despreocupado"); sons de videogames 8-bit (em "tropeço"); scratches de hip-hop (em "o estranho está na sua cabeça", outro título esclarecedor); ou beeps de alerta de computador doméstico (não se preocupe, não é seu sistema que está dando pau: é apenas "e, pelo ruído, venceremos").

O ouvinte conta, portanto, com muitos pontos nos quais se apoiar, ao se lançar na jornada conceitual proposta pelos autores. Estes, todavia, não se furtam a pregar eventuais peças, como no "ragtime do falanstério (do catete)": a principío uma comportada peça para piano solo, que quase se pode imaginar tocada por Ernesto Nazareth nos salões do Rio Antigo... Exceto pelo fato de que o seminal pianeiro precisaria ter seis dedos em cada mão para executá-la!

O procedimento usado em "falanstério..." é exemplar: o álbum e as composições jogam constantemente com familiaridade e ruptura, harmonizando com engenhosidade elementos supostamente díspares. Supostamente, apenas; pois irregular é a um só tempo tese e prova de como as fronteiras e categorizações se tornaram voláteis – e algo fúteis – numa época em que a experiência humana, impregnada de tecnologia, parece se dar cada vez mais sob o signo da simultaneidade.

O que aconteceria, afinal, se Machado de Assis entrasse para o Kraftwerk? Felizmente, THE HIDEOUS MEN não se propõem a responder tal pergunta imbecil. Victor e Benjamim tão somente tomam posse do que lhes pertence, sem cerimônia e com humor. Fazem música de seu tempo, sem tempo, no tempo da música. Quer acompanhá-los? Acolhem-no com prazer: irregular está coerentemente disponível (apenas) online. Não vá pensar, contudo, que precisam de sua aprovação: os aplausos já vêm convenientemente gravados no final.

Dimitri Rebello (Dimitri BR | http://diahum.com/) e Cleo Weiss
Rio de Janeiro, junho 2011





Licença Creative Commons
http://automatografo.org